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23.2.17

Ao Zeca, que ao fim de 30 anos cá está bem VIVO!



Associação José Afonso

As letras de Zeca

Tributo a Zeca Afonso

Mural Sonoro

Zeca, uma Estética que era uma ética



Letra e voz de Zé Mário Branco
Vieste de menino d'oiro pela mão
Acordar a madrugada
E fez mais, às vezes, uma só canção
Do que muita panfletada


         Grandes janelas soubeste abrir
         Por onde o ar correu sem te pedir
         Que não se cansem de nascer
         As fontes onde vais beber

         Nunca mais te hás-de calar,
         Ó Zeca, para nós
         Canta sempre sem parar
         Que é seiva e flor a tua voz

Vestiste a capa de caloiro coimbrão
Para ultrapassar o fado
E, em cada Natal, teu fruto temporão
Nunca foi ultrapassado


         Na distracção jogas à defesa
         Com o humor disfarças a tristeza
         Cantas a esp'rança e o amor
         Que o povo te ensinou, de cor

         Nunca mais te hás-de calar,
         Ó Zeca, para nós
         Canta sempre sem parar
         Que é seiva e flor a tua voz

Nem tudo o que reluz é oiro, pois então
E bem gostaria o facho
De te ver calado e manso pela mão
Com medalhas no penacho


         Co'a a tua ronha felina e sã
         Vais-lhe atirando as flechas de amanhã
         O olho pisco a acender
         E a garganta a acontecer

         Nunca mais te hás-de calar,
         Ó Zeca, para nós
         Canta sempre sem parar
         Que é seiva e flor a tua voz

Vieste de menino d'oiro pela mão...



Poema de José Mário Branco para Zeca Afonso

13.9.13

«Queixa das Almas Jovens Censuradas», Natália&Zé Mário - obrigatório!


poema de Natália Correia (1923-1993)

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte.