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31.8.15
2.2.14
... que os barcos voltem a subir o Guadiana... valeu a pena?
O FUGITIVO
"An harbour shall be that is to found and-oh!
Ever again-conquered"
Um homem corre na noite
é uma imagem banal
podia ser em Madrid
ou Johanesburgo,
ou em S. Paulo
ou Budapeste, Nova Yorque
ou Hollywood
ou é claro em Portugal
um homem corre na noite
é uma imagem banal
Porque foge? De onde vem?
porque olha para tráz inquieto?
Será soldado? vagabundo?
criminoso? ratoneiro?
será apenas o primeiro?
dos que vão fugir com eles?
Foge p'ra salvar a pele
só a sua? a pele dos outros?
a pele clara ou escura?
quanto tempo vai durar a sua fuga?
quanto dura? o que espera?
o que espera o homem --fera?
se chegar a quem o espera?
alguém o quer?alguém se acende?
alguém o chora?
alguém por quem ele chorou
chorará por ele agora?
alguém que nunca o traírá
e se sim., onde será?
Um homem luta contra o sangue
que derrama
e diz: faleu a pena?
Que os barcos
voltem a subir o Guadiana
vindos de longe
do mar
Que os barcos
voltem a subir o Guadiana
descarregando à passagem
do o trigo
que o cavalo esbaforido
chegue à relva, sua cama
que o fugitivo
encontre o seu porto de abrigo
Um homem corre na noite
é uma imagem banal
esgueirando de holofotes
com a estrada que atravessa
se confunde
com o seu breu do seu corpo
se confunde
e se passa um muro branco
fica branco como o cal
tal e qual
o camaleão
é uma imagem banal
Um homem luta contra o sangue
que derrama
em que cama
terá ele o seu repouso?
está ancioso? e como não?
não estaria quem pisasse
um desconhecido chão?
Não estaria de garganta afogueda
quem por nada
assim fugisse?
quem por tudo suplicasse
dai-me forces, dá-te forces
a ti próprio te confias
dá-te alento. dá-te tempo
dá-te dias
sobrevive de agonies
respirando sobrevives
sobrevive
Um homem vive
contra o sangue
que derrama
e diz: valeu a pena?
Que os barcos
voltem a subir o Guadiana
descarregando à passagem
do o trigo
que o cavalo esbaforido
chegue à relva, sua cama
que o fugitivo
encontre o seu porto de abrigo
Um homem corre na noite
é uma imagem banal
porque insiste? porque teima?
não há pânico na rua
não há fogo no quintal
labaredas? só nas camas
dos amantes
já distantes
chegam ruídos, utopias
quanto vale uma utopia?
vale tudo? quanto vale?
um homem corre na noite
é uma imagem banal
o que fez o fugitivo?
se está vivo é porque more
se morrer é porque o matam
se o matarem sera justo?
inocentes são os culpados de outros crimes
de que culpa?
de paixão? de inconsciência?
será justo ou não sera
desbaratar a inocência
tão a custo conquista?
porque corre o fugitivo nessa estrada?
E agora para para agora
o homem para
para agora para agora
será que sente que chegou a sua hora?
É impossível
Não é possível
correr tanto
e pensar tão
lucidamente
o coração
não aguenta
a cabeça também não
porque tenta
ultrapassar os seus limites?
provavelmente
é por vontade de viver
(quente quente...)
que ultrapassa os seus limites
diz para o seu coração
sentes que valeu a pena?
se te obrigam a fugir
mais te obrigam
a chegar junto a ti
valeu a pena?
...de Camões, e da luz que dá na cor...
"Amor é fogo que arde sem se ver
é ferida que dói e não se sente
é um contentamento descontente
é dor que desatina sem doer"
(Camões)
Que o poeta de todos os poetas
me conceda boa estrela
que a estrela de todos os astros
me premeia na lapela
prémios de honor
prefiro os muitos
oferecidos pelas mãos do amor
coroando o amor e os seus heterónimos
nem vão caber nos Jerónimos
Amores anónimos não há
e assim foi pela madrugada
mesmo que seja um "assim fosse"
vou nomear-te namorada
ninguém já soube o que é o amor
se o amor é aquilo que ninguém viu
uma cor que fugiu
de um pano leve
e pairou serena e breve
no ar
(pousa agora, borboleta
na pena deste poeta:)
É uma cor que dá na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
É uma cor que dá na vida
o amor
e uma luz que dá cor
mas é uma batalha perdida
que se trava com ardor
é uma cor que dá vida
o amor
dor que desatina sem doer
Se devagar se vai longe
devagar te quero perto
mesmo que o que arte nenca cure
vou beijar-te a sol aberto
é já dos livros que o instante
se parece tanto com a eternidade
e que o amor, na verdade
só se cansa de ti
se de ti mesmo te cansas
Mordidas mansas, emoções
suspiros densos, afagares
liberto das definições
o amor define os seus lugares
ilhas desertas até ver
ver o sol, a chuva
o arco do corpo
arco-íris, corpo a corpo
cara a cara, cor a cor
incadescendo o olhar
(pousa agora, borboleta
na pena deste poeta:)
E ao pôr o dedo nas feridas
que supúnhamos curadas
provoas de fogo atravessamos
no mar alto festejadas
não se contrala o inesperado
nem se diz o indizível do amor
uma cor que fugio
de um pano leve
e pairou serena e breve
no ar
(pousa agora, borboleta
na pena deste poeta:)
É uma cor que dá na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
É uma cor que dá na vida
o amor
e uma luz que dá cor.
7.9.13
Um Tempo que Passou, Chico Buarque&Sérgio Godinho
Letra: Chico Buarque; música: Sérgio Godinho
Vou
uma vez mais
correr atrás
de todo o meu tempo perdido
quem sabe, está guardado
num relógio escondido por quem
nem avalia o tempo que tem
Ou
alguém o achou
examinou
julgou um tempo sem sentido
quem sabe, foi usado
e está arrependido o ladrão
que andou vivendo com meu quinhão
Ou dorme num arquivo
um pedaço de vida
a vida, a vida que eu não gozei
eu não respirei
eu não existia
Mas eu estava vivo
vivo, vivo
o tempo escorreu
o tempo era meu
e apenas queria
haver de volta
cada minuto que passou sem mim
Sim
encontro enfim
iguais a mim
outras pessoas aturdidas
descubro que são muitas
as horas dessas vidas que estão
talvez postas em grande leilão
São
mais de um milhão
uma legião
um carrilhão de horas vivas
quem sabe, dobram juntas
as dores colectivas, quiçá
no canto mais pungente que há
Ou dançam numa torre
as nossas sobrevidas
vidas, vidas
a se encantar
a se combinar
em vidas futuras
Enquanto o vinho corre, corre, corre
morrem de rir
mas morrem de rir
naquelas alturas
pois sabem que não volta jamais
um tempo que passou
(Ou dançam numa torre...)
(Enquanto o vinho corre, corre, corre...)
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